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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Natal, festa da humanidade

O mundo está privado de luz. Por escolha própria. Por própria deliberação, vontade e consciência. A luz que veio da luz não foi recebida. Foi rejeitada pelos homens. Cada qual quis andar em outras ‘luzes’ que lhes eram convenientes. Escolheram por caminharem por conta própria, ao bel-prazer. Muitos esperavam uma luz que rasgasse os céus de forma magistral e triunfante. Decepcionaram-se. A luz esvaziou-se da sua potência, se tornou uma criança frágil e indefesa. O Deus Todo Poderoso se tornou carne que fenece, pois o homem se tornou Deus. Mais ainda: o homem tomou como Deus as próprias coisas que concebeu. E quando o homem troca as ordens da natureza, em nome do seu egoísmo, torna-se perverso, desumano, autoritário. Deus, para inverter essa situação, mandou Jesus, Deus de Deus, Luz da Luz. Deus tem feições humanas em Jesus, para que no próprio Jesus, o homem tenha feições divinas. Um homem que consegue dividir a história antes Dele e depois dele, não pode ser comum. Ainda que o Natal seja a festa da luz, do Sol maior que veio nos visitar, é tempo é profunda mudança de vida, de mentalidade e de coração. Que a troca de presentes dê lugar à troca de um coração velho para um novo coração. É no Natal que fica mais nítido que a fé não é pura e simplesmente fé em Deus, mas uma aposta ousada na humanidade. Para quem acredita em Deus, a fé Nele, de certa maneira, não é tão difícil assim. O desafio é crer que Ele acredita em nós, continua apostando e colocando todas as fichas em nós, para que busquemos o que precisamos ser nesta vida, e que façamos o que precisa ser feito. E isto não é tão evidente quanto parece. Natal é o desvelamento da verdadeira humanidade, que está no porvir, e que sobrevive da busca de quem procura com abertura de intelecto e retidão de coração. É a este mistério que somos chamados a nos render, para que alcancemos a verdadeira plenitude humana na história.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Credo quia absurdum!

Creio porque é absurdo! Esse era o mote dos pensadores no medievo, na Idade Média. A frase Credo quia absurdum é atribuída à Tertuliano, mas há sérias controvérsias. Há fontes que garantem que a frase não é de autoria de Tertuliano, mas de um de seus seguidores, mas até essa tese é questionável. O importante é ter em mente que nesse período entre séc. II e III, não havia nenhuma compatibilidade entre a fé, a razão e a cultura vigente. Ou o discurso se dirigia pela via da fé, do absurdo, ou o discurso se dirigia pela via da razão, sem maiores possibilidades de conciliação entre ambas. Em Fragmentos Filosóficos, Kiekegaard afirma que:" O escândalo está, pois, fora do paradoxo e por que causa? Quia absurdum. No entanto, a descoberta não é por causa da inteligência, já que, ao contrário, devemo-la ao paradoxo, que, apesar disso, recebe testemunho do escândalo. A inteligência diz que o paradoxo é o absurdo, porém ele não é senão um paradoxo, porque o paradoxo é sempre um paradoxo, um quia absurdum. O escândalo se encontra fora do paradoxo e conserva para si o verossímil, enquanto o paradoxo é o cume do inverossímil." Tirando o absurdo e o paradoxo, pouca coisa resta da fé e também da religião cristã. Tirando o absurdo e o paradoxo, iguala-se Deus e o homem, a mensagem se torna trivial e sem sal. Um exemplo? Abraão. Deus o convocou a sacrificar seu filho Isaac. No momento de desferir o golpe mortal, o anjo o impediu. O sacrifício já não era mais necessário e sim a prova de amor, o mergulho no tsunami da fé. Quem é capaz do martírio, do despojamento daquilo que considera de mais precioso nesse mundo, esse prova e justifica a fé e o amor ao Sagrado. Maria, que concebeu Cristo Deus em seu ventre. Diante da ousada proposta do arcanjo, sua fé inteligente questionou como se daria isso sem a intervenção humana? O arcanjo responde tranquilamente que a intervenção humana é o seu próprio sim, para que Deus realizasse, talvez, o maior de todos os absurdos possíveis: a encarnação de Deus no tempo. Em decorrência disso, surge outro gigantesco absurdo: O Deus humano se entregar aos homens por seus próprios pecados. Eleva os olhos ao Pai e grita que se possível que afaste o cálice de amargura e de fel que haveria de beber. Não foi impunemente: derramou seu sangue na cruz. O outro absurdo, um dos maiores, é que ressuscitou e vive entre nós, e que sua ressureição dura há mais de 2000 anos, bem mais do que todo o sofrimento que Ele passou. A vida seria sem graça sem os absurdos e paradoxos. Credo quia absurdum, amém!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Pe. Júlio Lancelotti, o apóstolo da fé e profeta do apostolado social no Brasil

Tive a alegria e o privilégio de conhecer esse grande profeta da fé e do apostolado social que é o pe. Júlio Lancelotti. Fui até a sua pároquia São Miguel Arcanjo, situada na Zona Leste de São Paulo. Me deparei com um grande homem, de olhar sereno e de voz mansa, marcado pelas cruzes da perseguição. Já na secretária da paróquia notei que era afeiçoado pelos santos, muitos santos. Perguntei a ele que linha seguia, ele me disse que seguia o Evangelho de Cristo. Tinha me referido as diferentes linhas de carismas na Igreja: RCC, Teologia da Libertação. Pe Júlio é aberto a todos os movimentos eclesiais, mas sempre com muito discernimento e cautela. Excessos há em todos os movimentos. Há que se buscar o que apóstolo Paulo disse: "Examinai tudo e ficai com aquilo que é bom!". Conversamos sobre a protestantinização do clero, os efeitos colateriais do modernismo na Igreja. O fato é que estão dando mais importancia para o estudo na Igreja, mas a missão e a questão social ainda está às traças. É importante clero bem formado, culto, povo bem formado e culto, entretanto, urge ir ao povo. Conversava com pe. Júlio que padre Dehon, apóstolo do coração de Jesus e profeta social dizia.: "O povo já não vem à Igreja...é preciso que a Igreja vá ao povo!" Mas infelizmente, não é isso que venho presenciando. Há muito o que fazer para que a Igreja possa se dizer missionária. O lugar de missão que refiro, pode ser qualquer lugar, mas o verdadeiro lugar de missão, de garimpagem, é o próprio homem! Seja onde for, encontraremos homens sedentos de Deus, sem esperança, sem voz e nem vez, despojados de sonhos e às margens da sociedade. Como não ser sensível e não enxergar o Coração de Jesus, que se faz frágil, nesses irmãos? Pe. Julio me levou a sua sala, cheia de santos, de livros. Me disse que chorou muito com um santo que amava muito: São João Eudes, o apóstolo do Sagrado Coração de Jesus. Pe. Júlio me ensinou naquela noite que quem realmente fez a experiência de Deus não pode se conter; já encontrou o que tanto procurava, e agora deve ajudar aos que mais precisam de ajuda na sociedade de hoje. Busca-se uma Igreja Missionária, despojada que vai com conteúdo anunciar Jesus! E não anuncia somente com as palavras, mas com a tradição da Igreja (sedimentação e inovação a partir da realidade) que não mede esforço para buscar os desgarrados, não pela apologética em si, mas pela qualidade de vida espiritual e humana. Procura-se pessoas dispostas a se imolarem no altar da vida em favor daqueles que perderam tudo o que é possível perder nessa vida. Como cristão, não devo falar somente das flores, devo falar dos espinhos que fazem sangrar o coração da humanidade! E mais do que falar, ser o milagre encarnado que não sabe esperar outro milagre para tomar as atitudes que devem ser tomadas, gerando fraternidade entre os homens e fazendo o Reinado Social do Coração de Cristo acontecer nas almas e na sociedade. Sei que o ibope não se rende ao avesso das flores que são os espinhos, e prefiro seguir assim, anunciando e denunciando! Diante da proposta de Cristo: "Quem quiser me seguir, toma a sua cruz e me siga" , alguém se habilita? Esta foi minha humilde homenagem ao padre Júlio, pois as homenagens devem ser feitas na vida e não depois que se passa dessa vida!