Uma copa do mundo não demonstra somente aspectos relacionados ao futebol, mas revela ao mundo as peculiaridades da cultura do país-sede. No caso da África do Sul, olhando suas páginas históricas, como não se deparar com o Apartheid? O Apartheid, que na língua africâner significa "separação", representa uma história de segregação entre "brancos" e "negros". Uma política de segregação racial que foi implementada como lei. Os negros, que representavam cerca de 70% da população nativa, eram proibidos de votar, eram preteridos de inúmeros empregos. O poder estava nas mãos dos "brancos", 30% da população nativa, que detinham muitos privilégios em detrimento da maioria da população local. Dentre as diversas proibições que o Apartheid asseverava, estava a proibição de casamentos entre negros e não-negros, imposição da declaração racial como "negro", "branco" ou "mestiço", proibição de pessoas de "raças diferentes" de frequentarem as mesmas instituições públicas, retaliações na educação das crianças "negras", criação de 'pátrias' para os negros. O que está por trás dessa idéia de segregação do Apartheid é a falsa concepção da superioridade das raças, tema muito ligado à idéia de raça pura, ariana do nazi-fascismo europeu, no intervalo entre a 1º e a 2º guerra mundial. Como no nazi-fascismo, muitas vidas tombaram, muito sangue foi derramado para que enfim, se chegasse ao fim. Como de toda luta, sempre há um lider que encarna o espírito de resistência, surge Nelson Mandela, que tinha sido condenado à prisão perpétua por se posicionar contra a política de segregação racional. Em 1973, as Nações Unidas lança o texto de supressão ao crime do Apartheid, condenando toda e quaisquer políticas que fomentem a segregação racial. Em 1976 ganha força, mas somente com a eleição de Mandela em 1994 que o Apartheid oficial chega a um termo, onde a constituição foi totalmente reformulada. Mas não há como negar que essa política segregacional deixou marcas profundas na sociedade e na cultura sul-africana. Para se ter uma vaga idéia sobre a problemática, ainda é muito delicado falar abertamente sobre o tema no páis. Ainda há muitas ilhas de apartheid. Na vida prática e no sub-mundo da cultura, há ainda inúmeras situações de preconceito, discriminação e racismo, mesmo que hoje, os "negros" tenham chegado ao poder. E os conceitos de preconceito, discriminação e racismo são distintos, mas ligados ainda à infeliz raiz da raça pura. No mundo inteiro há vários apartheid's, como no Brasil, a escravidão informal anda solta pelos recônditos de nossa terra tupiniquim. Só o fato da copa ser em terra sul-africana, já é uma conquista relevante para a consolidação da abolição definitiva do apartheid. Que a copa na África do Sul, ainda que esse motivo possa ser raso e superficial, possa ser causa de verdadeira transformação social, cultural. E, na verdade, já está havendo uma transformação progressiva, pelo andar progressivo da história e a atual orientação política sul-africana. Somado a esse esporte, que já uniu tantas vezes a tantas nações diferentes, acho que podemos ter ainda mais mudanças. Mas, ainda há muito o que fazer, e informalmente, o apartheid ainda não cessou...
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terça-feira, 8 de junho de 2010
E o apartheid ainda não cessou...
Uma copa do mundo não demonstra somente aspectos relacionados ao futebol, mas revela ao mundo as peculiaridades da cultura do país-sede. No caso da África do Sul, olhando suas páginas históricas, como não se deparar com o Apartheid? O Apartheid, que na língua africâner significa "separação", representa uma história de segregação entre "brancos" e "negros". Uma política de segregação racial que foi implementada como lei. Os negros, que representavam cerca de 70% da população nativa, eram proibidos de votar, eram preteridos de inúmeros empregos. O poder estava nas mãos dos "brancos", 30% da população nativa, que detinham muitos privilégios em detrimento da maioria da população local. Dentre as diversas proibições que o Apartheid asseverava, estava a proibição de casamentos entre negros e não-negros, imposição da declaração racial como "negro", "branco" ou "mestiço", proibição de pessoas de "raças diferentes" de frequentarem as mesmas instituições públicas, retaliações na educação das crianças "negras", criação de 'pátrias' para os negros. O que está por trás dessa idéia de segregação do Apartheid é a falsa concepção da superioridade das raças, tema muito ligado à idéia de raça pura, ariana do nazi-fascismo europeu, no intervalo entre a 1º e a 2º guerra mundial. Como no nazi-fascismo, muitas vidas tombaram, muito sangue foi derramado para que enfim, se chegasse ao fim. Como de toda luta, sempre há um lider que encarna o espírito de resistência, surge Nelson Mandela, que tinha sido condenado à prisão perpétua por se posicionar contra a política de segregação racional. Em 1973, as Nações Unidas lança o texto de supressão ao crime do Apartheid, condenando toda e quaisquer políticas que fomentem a segregação racial. Em 1976 ganha força, mas somente com a eleição de Mandela em 1994 que o Apartheid oficial chega a um termo, onde a constituição foi totalmente reformulada. Mas não há como negar que essa política segregacional deixou marcas profundas na sociedade e na cultura sul-africana. Para se ter uma vaga idéia sobre a problemática, ainda é muito delicado falar abertamente sobre o tema no páis. Ainda há muitas ilhas de apartheid. Na vida prática e no sub-mundo da cultura, há ainda inúmeras situações de preconceito, discriminação e racismo, mesmo que hoje, os "negros" tenham chegado ao poder. E os conceitos de preconceito, discriminação e racismo são distintos, mas ligados ainda à infeliz raiz da raça pura. No mundo inteiro há vários apartheid's, como no Brasil, a escravidão informal anda solta pelos recônditos de nossa terra tupiniquim. Só o fato da copa ser em terra sul-africana, já é uma conquista relevante para a consolidação da abolição definitiva do apartheid. Que a copa na África do Sul, ainda que esse motivo possa ser raso e superficial, possa ser causa de verdadeira transformação social, cultural. E, na verdade, já está havendo uma transformação progressiva, pelo andar progressivo da história e a atual orientação política sul-africana. Somado a esse esporte, que já uniu tantas vezes a tantas nações diferentes, acho que podemos ter ainda mais mudanças. Mas, ainda há muito o que fazer, e informalmente, o apartheid ainda não cessou...quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Deu Pena, Deu Pena Branca!
Tive a graça e o privilégio de conhecer pessoalmente o querido Pena Branca. Conheci nos bastidores do Canal do Boi em 2002, na oportunidade que tive de me apresentar pelo programa Show Brasil. Típico mineiro, fala pouco, observa e escuta bastante. Tivemos tempo para conversar sobre a música sertaneja, sobre as composições e a carreira brilhante dele e de seu irmão Xavantinho. Algumas horas de conversa me levaram a concluir que o sucesso e a fama nunca fizeram a cabeça de Pena Branca e Xavantinho. É que sua simplicidade, sua ingenuidade caipira nunca permitiram. Fiel à sua raiz e tradição permaneceu até o fim. Demonstrou a todos que é possível fazer boa música, sem deixar de primar por uma mensagem que seja clara, distinta e bela. Mostrou que sucesso é bem diferente do que estar na midia. Contribuiu muito com a cultura mineira, brasileira, a música sertaneja raiz em geral. Deixou rastros luminosos de honestidade, humildade, retidão e de amor ao que fazia, pois sabia do papel social que o artista exerce na sociedade brasileira. Uma cena que nunca mais eu esquecerei foi quando ele me emprestou sua viola para tocar, para o espanto de seu empresário que me disse que ele não costumava emprestar essa viola para ninguém e que eu tinha sido o primeiro. Naquela época, ainda não tocava viola, peguei-a para apreciar mais de perto. Talvez fosse uma pequena semente que Pena Branca jogara em meu coração, sem eu ao menos saber disso. Fiquei sabendo que na ocasião de quando ganhou o Grammy, ele, na sua inocência, perguntou do que se tratava. Só se tratava do maior reconhecimento mundial na carreira de um artista. Já o tinha como um modelo de ser humano e de artista, agora ainda mais, apesar de agora olhar para o palco e ver o microfone e a viola encostada sem ninguém. Sem som da viola pontilhada, sem o som de sua voz que cantava as belezas desta terra. A vida tem dessas coisas. Muitas vezes nos perguntamos porque pessoas boas como Pena Branca se vão, sem sequer uma despedida. Mas de que adiantaria uma despedida, se meu peito arderia de dor do mesmo jeito? Talvez seja para nos ensinar a viver com intensidade, como se fosse as últimas horas da vida, para fazer o que mais gosta com competência e amor, pois isto é consequência de uma profunda realização existencial como ser humano. Convoco a todos que se interessam pela boa música buscarem mais o conhecimento sobre a vida e obra dessa dupla maravilhosa: Pena Branca & Xavantinho. A verdadeira arte nunca morre com seu artista, pode passar seu autor, pode passar quem a concebeu. Ela continua, desde aquela pessoa que canta despretensiosamente sua canção, até aqueles que fazem do cantar a sua profissão. Deus agora não somente tem anjos cantando; tem a dupla completa: Pena Branca & Xavantinho que no céu cantam as belezas desta terra. Deu Pena...Deu Pena Branca!
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