quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Arte pela arte

Percebo que a 'necessidade' da música ser comercial, tornou banal a questão poética, da estética da mensagem. Penso que a questão da transformação é uma via de mão dupla. Produtores, cantores, compositores precisam mudar, e o povão também. A questão da internet como faz emergir uma nova esperança e, de certa forma, também perpetua o processo perverso do que eu chamaria da ditadura da feiúra, que abrange melodia e letra. A transformação é morosa, lenta. Mas se compreendermos bem o cenário, o contexto e todas as suas conseqüências culturais, já é um grande avanço para mudar. E ver que há pessoas que se preocupam e que se interessam pela questão me deixa esperançoso quanto ao futuro. Ainda tem pessoas que se debruçam sobre a questão, de maneira critica e não se tornam presas fáceis do momento. E me questiono porque as grandes composições de forte mensagem estética, poética são as que conseguem ser perenes, ou seja, desafiam a lógica do espaço-tempo. Indo para um campo mais filosófico, a estética está comprometida com a capacidade de produzir significações no coração humano. A própria obra de arte em questão, a música, é a ponta do iceberg, por assim dizer. É tempo de aprender a fazer a arte pela arte.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Sabedoria artesanal em retalhos de finitude

Sou amigo da sabedoria. Mas sábio, ainda não sou. Onde a sabedoria vai, eu vou atrás. Ela é maior do que eu. É misteriosa. Seus frutos são doces. É gota de orvalho na terra seca da alma. Ela vai ao encontro, porque se deixa encontrar àqueles que a procuram, mas não perde um só momento a capacidade de fascínio, de beleza. Sua beleza é fascinante, mas não efêmera, fugaz. É sedutora, mas não alicia. É misteriosa, mas todos podem apreciar. Traz encanto, mas não faz prisioneiros. Seu brilho cintila no tempo, se oferece aos homens. Mas nem todos estão dispostos para acolhê-la. A sabedoria é o avesso da utilidade. Está absorta na significação. No exercício da arte, a persigo. A tentação de buscar a palavra. A frase de efeito. Defeito que se põe contra mim. Logo noto que não é uma técnica. Não é conhecimento teórico. É a vida em movimento. É inteligência que me mostra horizontes, ângulos que ainda não pude enxergar. Planto as madrugadas para colher manhãs mais felizes. Ofereço os frutos ao tempo. Oferto o que sou ao crepúsculo da tarde. Sim, o tempo é minha cabana na história. Choro minhas dores mal resolvidas. Lágrimas que não voltam. A água que deu curso de uma história, de uma vida, e que agora, estão presente em meu rosto. Choro pelas presenças que se ausentam do tempo. Persigo a fé quando tenho somente motivos para não tê-la. Ávido pelas respostas, quando a pergunta, eu já nem me lembro mais. Sedento pelo milagre, quando me esqueci daquilo que foi pedido. Encontro o que de mim é só fragmento. Imerso na finitude irreversível. Nesse humano território, eu posso ser inteiro. Jogo minhas melhores sementes em campos onde os melhores lavradores não pensaram em jogar, muito menos cultivar. Ah, te procuro, sabedoria ! Te procurei nas enciclopédias. E não te localizei. Te procurei nos mais doutos. Me disseram que já tinha partido. Te procurei nas máximas filosóficas. Só encontrei a rastros de ti na solidão do caminho. Sentei à beira do caminho. Misto de nostalgia e saudade de não sei o quê. Sentimento sem nome. Um prato, um copo. Uma fome, uma sede.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Natal como renovação da potencialidade humana

“'Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas: a glória do Senhor então se manifestará, e todos os homens verão juntamente o que a boca do Senhor falou' ”(Isaias 40). Um desafio, quando nos deparamos o que foi feito do Natal. Uma época que se fala muito do papai noel. Uma data extremamente comercial. Um tempo onde reina o consumismo. Um período de confraternização. Um espaço de tempo para fazer o que não foi feito durante o ano. O protagonista do Natal anda muito esquecido no nosso meio. Faz lembrar que também quando nasceu, não foi recebido por multidões. Veio para todos, mas muitos não o receberam, e continuam não acolhendo. O coração precisa acolher o Deus que vem, Aquele que nunca esteve ausente do coração dos homens. Foram os homens que expulsaram Deus de seus corações. Fabricaram deuses como o consumismo, o individualismo. Em Jesus, a humanidade e a divindade se tocam, se abraçam. A história nunca mais foi a mesma depois que Ele adentrou no tempo cronológico. Mas para Ele entrar no tempo do coração, é preciso uma resposta individual, responsabilidade intransferível, que não pode ser delegada ou negociada. O Natal tem uma conotação escatológica. Deus virá definitivamente ao fim da nossa jornada terrestre. O advento nos ajuda a preparar o coração, a colocar toda nossa atenção, durante toda a nossa vida, à Aquele que não passa. Vigiar significa colocar a atenção, estar de prontidão. O fundamento da fé tem origem imaterial e assume forma na encarnação do Verbo. É a solenidade do Sol maior que se hospedou para sempre no coração da humanidade. Mas espera por uma adesão madura, serena de cada um de nós. O “Preparai o caminho do Senhor” corresponde ao trabalho humano de toda a hora para ser melhor, transformando as realidades negativas em sinal de vida. A começar pelas pequenas coisas, as mesmas que insistimos em ignorar, por acharmos que alguém poderia fazer. Não conseguimos isso sem a graça divina e ela vem ao nosso encontro. Ao nosso favor, temos dons, habilidades para fazer acontecer. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós! Não é um fato histórico perdido no tempo e no espaço. É vida continua, renovação perpétua, vida atualizada no nosso tempo. É água cristalina que brota da mais pura fonte. É preciso a cumplicidade humana de encontrar o Deus, já que Ele veio encontrar e curar os homens feridos, cansados. Desceu do céu para ter um coração humano e mostrar até que ponto pode chegar o coração humano no sentido de amar. Por isso que o Natal é a renovação das nossas possibilidades e potencialidades como seres humanos. Seja plenamente feliz ! Você tem tudo potencialmente dentro de ti ! Feliz Natal !

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A fisionomia do catolicismo no Brasil

Há, pelo menos, três tendências no comportamento do católico contemporâneo que assumem sua religião: um grupo neo-tradicional optam por assistirem missas tridentinas, em latim, cantos gregorianos. A uma parte, dessas pessoas que preferem o neo-tradicionalismo, são algumas pessoas que iniciaram na Renovação Carismática Católica, mas que ficaram profundamente incomodadas com os abusos no que toca a disciplina liturgica. Viram na missa tridentina, uma celebração na qual, a Igreja celebrou pelo menos 1500 anos. Preferem um mergulho nessa missa, por estarem saturados da laicização do clero e da clericalização dos leigos. Identificam que nessa inversão de papeis, que os abusos na missa assumida pela concepção do Concílio Vaticano II chegaram ao limite. E optam por uma liturgia mais orante, silenciosa, adorante. Com menos participação do leigo, e mais participação do sacerdote. Assumem que a língua latina, mesmo que alguns participantes não entendam absolutamente nada, introduz a comunidade ao mistério divino. Entendem que a missa deve reproduzir somente a questão propiciatória e oblativa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na questão social, alguns grupos neo-tradicionais estabelecem uma cruzada contra os erros litúrgicos, mas motivados pela rejeição ao Concílio Vaticano II. Alguns caem em um sedecantismo velado, e outros em sedevacantismo escancarado. Alguns preferem esse tipo de celebração por certa nostalgia. Mas existem muitos fiéis sinceros, maduros desse tipo de demanda católica. Na outra ponta, há pessoas que preferem uma espiritualidade pentecostal. São pessoas que já assumiram diversos serviços pastorais em paróquias, mas que hoje, preferem constituir comunidades alternativas (da Renovação Carismática Católica) às paróquias, por considerarem a estrutura eclesial pesada demais, por não se identificarem com um certa linguagem que os distanciem de suas realidades. Formaram sua espiritualidade na emoção, sob as perspectivas do louvor e da adoração, características comuns a denominações protestantes e também da RCC, que como se sabe, foi iniciada com um grupo de católicos ansiosos por experimentarem a experiência pentecostal, onde foi solicitada a presença de um pastor protestante e a leitura do livro “Entre a cruz e o punhal”. Sentem-se identificados com a concepção de missa como a ressurreição de Jesus, assumindo-a como uma festa, como pretexto de atrair os mais jovens. Ignoram o sentido sacrifical, e não poucas vezes, enlevando o carater memorial da sagrada liturgia. A comunicação, em alguns círculos pentecostais, se baseia na conversa informal, intimista e até mesmo banalizada dos temas cristãos. Tudo para aproximar o jovem da Igreja, e de Cristo. Existem também muitos fiéis conscientes e maduros nessa espiritualidade. Adelia Prado, uma vez disse que “às vezes, saio da missa para procurar um outro lugar para rezar.” De fato, faz tempo que nossos templos deixaram de ser um lugar de silêncio, de adoração. Tornou-se mais um ponto de encontro entre amigos do que um encontro com Deus. As pessoas não sabem acolher quem chega, pois estão absorvidas nos afazeres pastorais. Parece que seus serviços pastorais são mais urgentes do que acolher as pessoas. Diagnóstico simples: não acolhem as pessoas porque não acolhem verdadeiramente Deus em seus corações, pois se tornaram reféns do fazer. Uma vez refens do fazer, não conseguem ser uma presença de acolhida, de encontro fraterno. Muitos ainda possuem a concepção de serviço pastoral como status, citando somente um pequeno exemplo: alguns ministros extraordinários da Sagrada Comunhão que, mesmo ao final do mandato de suas funções, não conseguem ser simples leigos. Ainda há ‘mini-cardeais’ nas paróquias que mandam e desmandam muito mais do que os sacerdotes. Ego, vaidade e poder. Muitas de nossas comunidades se tornaram um espaço de barulho e exclusão de pessoas. Algumas pessoas que antes eram simpáticas à Teologia da Libertação, migraram para os grupos da RCC, outros deixaram de ser católicos e se tornaram marxistas. Depois das reprimendas papais (notadamente João Paulo II e Bento XVI) acerca da hermenêutica marxista, algumas linhas têm se especializado a fazer uma leitura social do Evangelho, sem a tônica marxista, pela via da ecologia, dos direitos humanos e pela opção preferencial pelos mais pobres. Ainda assim, há o risco de se centrarem somente na dignidade do homem e da natureza do que na dignidade de Deus, que anda ‘ultrajada’ por ideologias de orientações políticas, econômicas e filosóficas, que estão a fomentar o ‘eclipse de Deus’ nas sociedades. Há também grupos interessados em mesclar elementos da religião católica com elementos culturais, com a predominancia do sincretismo entre catolicismo e umbanda (predominantemente na Bahia) e crenças indígenas (predominantemente na Região Norte). Fazem uma miscelânia com a liturgia, fazendo sobressair seus elementos culturais. Há que se perceber que, nas tendências apresentadas, uma tremenda dose de exageros. Tanto a linha neo-tradicional, quanto a linha pentecostal, têm espaço na grande diversidade que se compõe a Igreja, corpo místico de Cristo. O que não pode ter espaço é o sincretismo promovido por alguns da religião com qualquer outra manifestação religiosa, como disse Bento XVI, na oportunidade da visita Ad Limina dos Bispos da Região Norte ao Vaticano. Criticável também é a postura de alguns ‘neo-tradicionalistas’ que declaram guerra ao Concílio Vaticano II, ainda que muitas das suas críticas acerca dos abusos litúrgicos estejam corretas. Criticável também é a posição de alguns carismáticos que preferem muito mais um grupo de oração, regado a orações em línguas e muito barulho, em detrimento a participarem da missa, de forma madura e consciente, ainda que estejam certos por buscarem novos meios para evangelizar e chegar ao povo. A questão começa quando se considera que sua específica espiritualidade católica é melhor do que a outra. As duas extremas posturas de alguns se distanciam do ‘sentire cum Ecclesia’, expressão de Inácio de Loyola, fundador da Ordem Jesuíta. Sentir com a Igreja, que deveria ser expressão máxima de diversidade de dons na mesma unidade de servir e de amar. Se podemos falar em critério de catolicidade, é a medida do esforço em estar em sintonia, em comunhão com a Igreja. Isso pode ser expresso na medida em que há tolerância, capacidade de escutar, aceitar críticas, aceitar correções e aprender com uma expressão católica diferente da sua, à luz da Tradição, da Escritura e do Magistério. Dizer o que precisa ser dito na verdade, na caridade. Fazer o que precisa ser feito com razão, alicerçada na fé. Nenhum carisma é mais completo que o outro, a não ser o amor. Nenhum dom é mais suficiente que o outro, a não ser o amor. Nenhuma expressão particular eclesial é a mais perfeita, a não ser o amor. Ainda há alguns quilômetros a serem percorridos neste sentido, no Caminho, Verdade e Vida que é Cristo Jesus. Os extremos deveriam aprofundar mais o que o apóstolo Paulo diz: “Examinai tudo e ficai com aquilo que é bom !” A busca da autêntica espiritualidade católica, se não se encerra nesta frase, está em grande parte contida nela.

Ganhando (ou perdendo?) a vida em São Paulo

Acordo, mas não entro em acordo com o sono. Vou tomar banho. Mais para despertar o sonâmbulo que cochila nas águas aquecidas do chuveiro. Mesmo acordando cedo, não dá tempo para tomar o café in my house. Tenho que ir trabalhar. O tempo todo eu contra o tempo. Eu contra o sono. Agora é eu contra o ônibus, o metrô, as pessoas… as pessoas ? A correria da semana, a luta pela sobrevivência tem falado mais alto do que a educação, a gentileza, o respeito. Quem já não pegou o metrô, seja linha Norte-Sul, Leste-Oeste, o trem Julio Prestes – Itapevi , Osasco-Grajaú , na qual estar em um caminhão de bois seria mais confortáv el do que estar por ali ? Quem não pegou o ônibus para ir trabalhar e ser fechado a vácuo pela porta da frente? Quem não pegou aquele trânsito infernal na capital paulistana ? Nos ônibus, metrôs e trens, há jovens que não respeitam os anciãos. Há gente se acotovelando por 30 centímetros de conforto. Há os aproveitadores de mulheres. Há os furtadores. Mas também há jovens que respeitam o direito dos anciões, da gestante, da pessoa especial.Também há aqueles que mesmo com menos de 20 centímetros de espaço, esperam os outros desembarcarem para conseguirem um justo conforto. Há quem tente ganhar a vida vendendo doces, salgados. Caráter não é uma questão da (des) ordem do sistema social. É a bifurcação da formação familiar com a conduta individual de cada qual. Mas parece que na massa humana, o humano galga índices de irracionalidade impressionantes. A irracionalidade humana que assume feições de intolerância, violência e falta de humanidade. N ão tem sido tarefa fácil ganhar o pão na capítal paulistana. Até porque tem sido bem mais difícil ser gente na grande cidade. Depois de um longo turno de traballho, com pressões, metas e mais o chefe, enfrentar mais uma longa viagem … para casa, cair na cama e descansar ? Quem dera! Uma longa viagem para a faculdade, estudar para melhorar a vida. Já é 0:01 e ainda não cheguei em casa. Adivinha onde estou ? Em algum metro ou ônibus da grande cidade. Nunca morei no interior, mas que dá saudade, ah, isso dá !

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A arte da escrita

Escrever, uma paixão para vida toda. Uma arte que não pode ser identificada com técnica, nem pura repetição. Não se trata de mera aproximação de palavras, a busca da rima pela rima. Antes da palavra, o silêncio. Antes do significado, o mistério. Nem preciso dizer que é preciso amar a arte da escrita. Mas não basta. É preciso estar encantado com o mistério, é preciso embriagar-se de perplexidade do não-óbvio. É saber fazer a pergunta, mas sem pressa de responder. É considerar a dúvida como uma dádiva que nos traz o elemento desconhecido, o elemento renovador que outrora ignorávamos. Entrelaçar artesanalmente caos e significado, escuro e claridade, desconhecido e revelado. No tear das palavras, vai minha humanidade, minha inquietude. Escrever é o prato favorito servido à mesa, na qual, não é preciso mostrar os ingredientes e nem o esforço aplicado na confecção, somente ter tempo para saborear no momento e ruminar para a vida inteira.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Neo-niilismo: a face sombria moderna como carência de sentido

Foi-se o tempo que em nosso meio havia inversão de valores. Isso, que outrora acontecia, já não acontece mais. Estamos no tempo da ausência de valores. No auge do poderio do sujeito, Nietzche propunha uma transvaloração dos valores, onde os valores do sujeito deveriam ser impostos na forma de perspectivas, onde cada qual tinha a sua. O mote dessa tremenda transformação foi outra tremenda transformação: a revolução copernicana, onde o sujeito assumiu o protagonismo na constituição do conhecimento humano. O sujeito que funda a realidade conforme sua conveniência. A realidade do sujeito equivale ao seu arcabouço particular, suas expressões, desejos e projeções acerca da realidade objetiva. Contudo, o individualismo exacerbado, juntamente com o movimento da globalização se auto-traiu: despedaçou o sujeito na ânsia de sujeitar tudo a si. Como bem disse Bento XVI, a globalização nos avizinhou, mas não nos tornou irmãos. Ora, a globalização e o individualismo são produtos da modernidade, que também viabilizou o horror dos campos de concentração, quando essa mesma modernidade é instrumentalizada pelos megalomaníacos. Essa conjuntura nos leva a um cenário de neo-niilismo, com a morte do sujeito que se declarou centro e senhor da realidade e do conhecimento e ruiu no extremismo do eu. O indivíduo, desfigurado de sua subjetividade, se viu arremessado a um conglomerado humano que não faz questão nenhuma de pensar, são inertes, sem esboçar qualquer poder de reação. Em resumo: os valores humanos foram transvalorados em valores individuais, que hoje se tornaram pó da estrada. Efeito: o homem hodierno sofre da ausência de sentido e se tornou presa fácil da efemeridade do relativo, onde o único sentido é não ter sentido.