segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Neo-niilismo: a face sombria moderna como carência de sentido

Foi-se o tempo que em nosso meio havia inversão de valores. Isso, que outrora acontecia, já não acontece mais. Estamos no tempo da ausência de valores. No auge do poderio do sujeito, Nietzche propunha uma transvaloração dos valores, onde os valores do sujeito deveriam ser impostos na forma de perspectivas, onde cada qual tinha a sua. O mote dessa tremenda transformação foi outra tremenda transformação: a revolução copernicana, onde o sujeito assumiu o protagonismo na constituição do conhecimento humano. O sujeito que funda a realidade conforme sua conveniência. A realidade do sujeito equivale ao seu arcabouço particular, suas expressões, desejos e projeções acerca da realidade objetiva. Contudo, o individualismo exacerbado, juntamente com o movimento da globalização se auto-traiu: despedaçou o sujeito na ânsia de sujeitar tudo a si. Como bem disse Bento XVI, a globalização nos avizinhou, mas não nos tornou irmãos. Ora, a globalização e o individualismo são produtos da modernidade, que também viabilizou o horror dos campos de concentração, quando essa mesma modernidade é instrumentalizada pelos megalomaníacos. Essa conjuntura nos leva a um cenário de neo-niilismo, com a morte do sujeito que se declarou centro e senhor da realidade e do conhecimento e ruiu no extremismo do eu. O indivíduo, desfigurado de sua subjetividade, se viu arremessado a um conglomerado humano que não faz questão nenhuma de pensar, são inertes, sem esboçar qualquer poder de reação. Em resumo: os valores humanos foram transvalorados em valores individuais, que hoje se tornaram pó da estrada. Efeito: o homem hodierno sofre da ausência de sentido e se tornou presa fácil da efemeridade do relativo, onde o único sentido é não ter sentido.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Poema ao pé da tarde

Não sei porque insisto em escrever

Deve ser porque a vida queira viver

Segurei por tanto tempo a palavra

E a vida eu não posso segurar, minh’alma

A vida abarca o som e o silêncio

Como a eternidade, a pausa e o tempo.

Preciso de uma gota desse mel

Mergulhado no deserto desse fel

Posso até forçar o que escrevo

Mas não disfarço o meu medo

Acordo já esperando pela tarde

É a noite que anseio, na verdade.

Deus eternize quem inventou a poesia

E me traga os versos que distribuem a vida

Não me faça desistir quando me der por vencido

Mas me transforme em um soldado destemido

Sou um cruzado que não vale nem meio real

Sua amizade e seu amor irão me justificar no final.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Da não-palavra à palavra: a labuta do caminho de volta

Necessária solidão, a solidão da leitura. A dificuldade de sair da maratona do dia-a-dia. O sacrifício de fazer silêncio. O martírio de ficar só. O heroismo de me encarar de frente. A coragem de se notar no espelho da palavra. A aventura de mergulhar em um mar inexplorado. Solidão de pessoas, comunhão com as palavras. Autores de tempos imemóriais e autores de hoje adentram à minha casa, sentam à minha mesa e eu só escuto. Despejam seus palavreados em minh'alma. Logo, busco a não-palavra, o não-conceito, o que não é delimitado. O limitado quando entra no domínio do que não é delimitado, admira-se, fica perplexo, pasmo. Começa a pensar em fazer extraordinariamente as coisas ordinárias do cotidiano. Solidão de pessoas, comunhão com as palavras. E palavras também são pessoas. Possuem vida ou morte próprias. Tão reais que algumas fazem viver como outras fazem morrer. Desde o começo, a palavra não é minha. Não é minha a não-palavra, pois é antes de mim. A palavra não é minha, quando a formulei em pensamento e a escrevei em um pedaço de papel, renunciei minha autoria e está em quem a recebe. A capacidade de transformar a não-palavra em palavra também não me pertence. Ora, o que me pertence afinal ? Acho que o que me pertence é o não-pertencer. Ser no não-ser. Criar no não-criar. Eis meu sentimento ao escrever, ao viver.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Esses inexperientes: pai e filho

Pai, tantas lembranças eu tenho de ti, se eu começar a contar, não haverá mais espaço nas folhas de todos os livros que possa haver no mundo. Me lembro das suas brincadeiras, das suas histórias, do sei jeito de me fazer feliz. Me lembro daquele dia, caminhando na rua da praia, eu dizia que queria desistir de tudo, desistir da vida, e você me disse, não, não desista, eu estou com você, vamos juntos procurar uma saída. Me lembro de todas as vezes que me orientava, e como um erudito da vida, me dava aulas sobre a arte de viver, coisas que não aprendi nos livros acadêmicos, mas de você. Me lembro que todas as noites me levava para dormir e rezava junto comigo a oração do Anjo da guarda e um pai nosso. Diante de ti, não sou nada mais do que um menino que hoje quer deitar em seu colo e sentir-se amado. Diante de ti, não sei esconder nada. Somos eternos inexperientes na lida de ser pai e ser filho. Cada momento é um novo aprendizado, uma escola com portas abertas para aprender. Quero viver ainda muito tempo ao teu lado, bebendo da tua sabedoria, tua história de vida, como nos velhos tempos. Renovo o meu amor que tantas vezes eu te jurei. Te amo, te amarei, sei que nessa vida, não terei melhor amigo que você. Deus o abençoe e o conserve. Do seu menino, Ricardo.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Realização humana, sucesso e dinheiro: essas variáveis cabem na equação de ser feliz ?

Muitos buscam em uma profissão somente o dinheiro. Fazem graduações, pós-graduações, especializações, MBA e etc … Sustentam inúmeros títulos e orgulham-se por eles. Mas o orgulho não acompanha uma realização humana e pessoal, mas no caso, é sucedida por um grande vazio. Não raro possuem grande fonte de renda e pouquíssima realização humana. Muitos procuram em suas carreiras somente o sucesso, o status. São pessoas que colocaram sua vida em seus contatos, conchavos para obterem êxito em suas escolhas. Não medem esforços para estarem nos patamares mais elevados, gostam de serem notados, mesmo que seja preciso prejudicar seu companheiro de trabalho. Mas o tempo e as circunstâncias lhes revelam que o sucesso por si não é sustentável, se não houver uma realização humana que o acompanhe. Muitos procuram somente a realização humana, e pensam que serão realizados sem nenhum sacrifício, abnegações e renúncias. Vivem desconexos da realidade, não assumem responsabilidades, e quando se deparam com grandes desafios, fogem dessas situações. Os casos elencados aqui são exemplos de excessos. Fomos educados a procurar uma profissão por aquilo que ela aparenta, sucesso, dinheiro, uma vida cômoda e tranqüila, mas não por um sucesso ancorado em uma realização humana, fruto de uma madura reflexão de escolher estar no lugar certo, na hora certa e ser a pessoa certa. Penso que por trás desse processo que vivemos, há uma profunda distorção do conceito de trabalho. A instrumentalização maciça em todas as instâncias que envolvem o trabalho acarretou a dissociação entre realização humana, sucesso e dinheiro. Ora, e o que é trabalho ? É basicamente um serviço. Serviço que lembra o verbo servir. Servir que nos remete a uma relação dialógica entre aquele quem serve e aquele que é servido. Uma relação de quem algo a oferecer para quem precisa desse algo. Por aqui já dá para ter uma idéia de como as organizações se estruturaram a partir da necessidade, da carência. Por trás da massificação dos meios de produção ( que trouxeram inúmeros benefícios a humanidade, inegavelmente !), há o desejo antiqüíssimo de dominação, de poder, de manutenção de uma dependência. É por aqui que o trabalho-serviço se transforma em trabalho-dominação. Quem serve, se considerou maior e melhor do que aquele que é servido. Começou a pensar as estruturas a partir de seu desejo de dominação, aumentando os meios de produção e diminuindo os recursos humanos, visando a máxima otimização dos processos, bem como o lucro. A mão-de-obra, foi, é, e está passiva, pois sobre ela pesa o medo de perder o seu posto de trabalho. De certa forma, corrobora a consolidação desse ciclo vicioso. Essa é a história, a grosso modo, na qual desvinculou realização humana, sucesso e dinheiro. Não é minha pretensão dar nenhuma formula mágica, mirabolante, sinceramente, não tenho. Mas o que posso fazer é gerar reflexões, provocações, pensamentos que possam ocasionar transformações a partir de você. O agente de mudança é cada um de nós, e essa história pode continuar ou terminar dependendo de você. Comece a pensar o que realmente te motiva a levantar da cama, nas madrugadas / manhãs de segunda-feira. Não é por acaso que as segundas-feiras são tão demonizadas por nos … !

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Encarnação em Gabriel Marcel

Marcel considera que a verdadeira subjetividade se dá na relação com alguém. Nessa relação, é preciso entrega mútua e reciproca, é preciso desprender-se de si para compreender sua própria subjetividade. Se cada qual descobre sua subjetividade na medida em que se entrega na relação com alguém, não se trata simplesmente de subjetividade, mas de uma intersubjetividade, o eu que descobre sua raízes mais profundas no encontro, na relação. Logo, o ser é relacional, é metade existencial incompleta, que necessita do outro. Um necessita da participação plena e sem reservas do outro e vice-versa. Para Marcel, é a participação entre ambos que garante que o homem enfrentar sua condição humana, empresa essa que fracassaria se estivesse sozinho. Pois bem: nem intersubjetividade, nem entrega, nem participação seria possivel, se não houvesse uma corporeidade, uma encarnação, e para Marcel, aqui está o ponto central da investigação filosófica. É a partir da corporeidade, que o ser humano pode estabelecer suas relações. Contudo, isto não implica que o homem se reduza a um corpo. Marcel não concordaria com uma instrumentalização do homem enquanto corpo. Segundo ele: “Trágico é o ser-com enquadrar-se ou ser enquadrado no horizonte do ter, da posse, sujeito às coisas”[1]. Péssimo negócio seria deixar o ter assumir o domínio do ser para o outro. Uma relação dominante e dominado está muito longe do ser para o outro, ou seja, da verdadeira intersubjetividade. Não se trata de uma relação sujeito e objeto, mas uma relação sujeito-sujeito. Nesta relação entre sujeitos, ambos interagem e são interagidos. Não há espaço aqui para tornar o outro como objeto, ou como um meio, ou qualquer instrumentalização que seja. Há o eu e há o tu, e ambos são sujeitos. Aqui emerge o mistério do ser, que: “... é algo a que estou ligado, não parcialmente, por algum aspecto determinado e especializado, mas inteiramente, enquanto realizo uma unidade que, por definição, nunca pode apreender-se a si próprio, podendo somente ser objeto de criação e de fé. O mistério faz desaparecer a fronteira entre o em-mim e o perante mim.”[2] Há dois sujeitos que participam da relação e fazem com que o que era dois sujeito possa se tornar um só sujeito. O eu e o tu em relação é o eu-tu. É uma fusão ontológica dos sujeitos, por assim dizer. E como fica a corporeidade do sujeito unificado eu-tu? Diria que a corporeidade dos sujeitos distintos se mantém, mesmo na fusão ontológica dos sujeitos. É somente uma fusão ontológica de sujeitos e não fusão de corporeidade. E como fica a individualidade dos sujeitos ? Diria que não há perda da singularidade, da individualidade de cada qual, e há liberdade nesta unidade de sujeitos. Nesta relação, não há dominantes e dominados, vencedores e derrotados. O eu-tu, no fundo, é o nós.

[1] Marcel,Gabriel. Diário Metafísico. Madrid: Ediciones Guadarrama, 1969, p.193-217

[2]Marcel,Gabriel. El Mistério del Ser. Buenos Aires, Ed. Sudamericana, 1951, p.81

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Intersubjetividade em Gabriel Marcel

A Filosofia da existência emergiu a partir de dois contextos completamente antagônicos e reinantes da época: a metafísica, marcada por seu alto nível de abstração, e a objetivação, marcada por seu alto nível de experimentos e comprovações empíricas. Enquanto a metafísica se ocupava de temas como Deus, verdade, bondade, a objetivação se ocupava com métodos científicos e experimentais. Não havia espaço para falar sobre as relações, sobre o outro. Gostaria de tratar sobre Gabriel Marcel, pouco mencionado nos estudos filosóficos. Gabriel Marcel viveu a desolação da Primeira Guerra Mundial e percebeu que: “Apontou um ser de dores e alegrias, descobrimentos e decepções, não podendo mais se contentar com as formas abstratas, que até então o satisfaziam. Pois, essa época traz a experiência profunda do mim mesmo.”[1] Uma crítica direta e clara à tradição metafísica ocidental que preconizava as formas abstratas, que tem como legítimos representantes filósofos gregos como Sócrates, Platão, Aristóteles, filósofos do medievo como Agostinho e Tomás de Aquino. Marcel sente a necessidade de falar sobre a interioridade, sobre o ser e a subjetividade. O que está em jogo aqui é o questionamento sobre o ser. Seria o ser relacionado com o eu ? Ele responde: “...viemos depois de outros, dos quais temos recebido muito (...), e que, em relação a outros seres, também viemos antes”[2] Marcel constata que o ser em um primeiro momento não se relaciona com o eu, mas com o outro. Muitos já vieram antes de mim, muitos já contribuíram com tantas coisas bem antes de mim. Existe um antes e depois de mim. Isto indica que não sou absoluto nesta relação. Não indica que eu sou melhor e nem pior. Indica um antes e um depois. Hoje recebo e amanhã cederei. Esboça-se o conceito de alteridade. Para Marcel: , “... na medida em que, pela minha própria experiência, me elevar a uma percepção verdadeiramente concreta, estarei em condições de ascender a uma compreensão afetiva do outro, da experiência do outro.” A corrente metafísica está sendo o alvo da crítica de Marcel novamente. Pela visão metafísica, o ponto de partida é o imaterial para o material. Marcel propõe o contrário: do material para o imaterial. Submerso plenamente pela experiência sensível, posso me elevar na perspectiva do outro. Mas se o ser, em um primeiro momento, se relaciona com o outro, qual é o espaço para a subjetividade? O filósofo responde: “Não me preocupo pelo ser, senão na medida em que tomo consciência, mais ou menos distinta, da unidade subjacente que me une a outros seres, cuja realidade presencio.” O papel da subjetividade se clareia, na medida tomo consciência do outro. Logo, estou diante de uma subjetividade na perspectiva de alguém. Mais: não somente uma subjetividade, mas uma intersubjetividade, já que descubro o eu na relação com o outro. Percebo também que há tanta fragilidade do lado de lá, quanto do lado de cá. Isto implica que sou um ser em trânsito, um ser em relação, que descobre seu eu na relação com o outro. Como não notar as premissas de participação e envolvimento embutidos nesses argumentos ? Com a palavra, Marcel: “Participar significa simplesmente receber uma parte, um fragmento de um todo dado. Por isso, é impossível participar com todo nosso ser numa empresa, ou numa aventura, sem experimentar, em certa medida, o sentimento de ser arrastado; e esta, sem dúvida, é a condição indispensável que permite ao homem resistir a uma fadiga em que sucumbiria se estivesse só.” [3]


[1] MARCEL, Gabriel. El Mistério del Ser. Buenos Aires, Ed. Sudamericana, 1953, p.202

[2] MARCEL, Gabriel. El Mistério del Ser. Buenos Aires, Ed. Sudamericana, 1953, p.204

[3] MARCEL, Gabriel. El Mistério del Ser. Buenos Aires, Ed. Sudamericana, 1953, p.115-116