Schopenhauer, em seu livro O mundo como vontade e representação - vol 1, apresenta com maestria uma possível epistemologia da música. A música, para o nosso filósofo em questão, seria uma totalidade daquilo que presenciamos na realidade, que traz em seu bojo uma universalidade que está em paridade com o peculiar das coisas. Todavia, não se trata de uma universalidade alienante, descompromissada com a realidade. Essa universalidade na qual Schopenhauer se refere se relaciona com a matematização dos objetos possíveis da experiência sensível, isto é, elementos da Geometria e os números que são formulas universais da empiria, aplicáveis a priori em qualquer circunstância e contexto. Esse material matemático da experiência, de certa forma, não é abstração, mas, antes de tudo, intuição, com característica de delimitação, demarcação. Dentro desta perspectiva intuitiva, tudo aquilo que ocorre na interioridade humana é passível de ser expresso por uma infinidade de melodias. Não estamos, ainda, no universo dos conteúdos, mas no universo das formas. A melodia, nessa etapa, não está sendo regida por nenhuma empiria, mas repousa naquilo que Schopenhauer chama de “em-si”. Fixemos essa gama de conceitos pela explanação do próprio filósofo:
“A música é, portanto, se considerada como expressão do mundo, uma linguagem universal em sumo grau, que até mesmo para a universalidade dos conceitos está mais ou menos como esta está para as coisas singulares. Sua universalidade, porém, não é de modo algum aquela universalidade vazia da abstração, mas é de espécie inteiramente outra e está ligada a uma completa e clara determinidade. Equipara-se a isso às figuras geométricas e aos números, que, como formas universais de todos os objetos possíveis da experiência e aplicáveis a priori a todos, não são no entanto abstratos, mas intuitivos e completamente determinados. Todos os esforços, emoções da vontade, tudo aquilo que se passa no interior do homem, e que a razão lança no amplo conceito negativo de sentimento, pode exprimir-se pelas infinitas melodias possíveis, mas sempre na universalidade da mera forma, sem o conteúdo,sempre segundo o "em-si", nunca segundo o fenômeno, como que sua alma mais íntima, sem o corpo.”
Essa estreita relação que a música tem com a essência das coisas, de certa maneira, justifica todas as vezes quando estamos ouvindo uma música, uma peça musical, uma sinfonia, nos identificamos prontamente com a música que está sendo executada. E essa correspondência não ocorre sem uma entrega radical, sem reservas à música que está sendo executada, pois, ao contrário, o visgo musical não seduziria a quem pudesse estar a escutar alguma música. Quando alguém se entrega sem medidas à música, não fica isento da atividade do visgo musical: recorda-se de muitas circunstâncias do passado, muitas lembranças vem à tona, daquilo que está vivendo no momento, como um vulcão ativo ao liberar seu magma. Aqui é retirado o véu das coisas, pois quem está a escutar, identifica a melodia com determinado período de sua existência, que de tal maneira tocado por sua ação, não pode ser o mesmo quando estava a escutar pela primeira vez. Esse desvelamento do ser está no processo do vir-a-ser, por isso é inesgotável o que revela a quem aprecia uma obra musical. Cada execução é uma surpresa, uma novidade. Seja por causa da operação desse visgo musical, seja pela disposição humana no exato momento em que está exposta a essa ação da música. Todavia, em um instante racional, ele já não consegue localizar o nexo entre música e realidade. Mais uma vez, com a palavra, Schopenhauer:
“A partir dessa íntima relação que a tem com a essência verdadeira de todas as coisas, pode-se também explicar por que, quando soa uma música adequada a alguma cena, ação, evento, circunstância, esta nos parece abrir seu sentido mais secreto e se introduz como o mais correto e mais claro dos comentários: do mesmo modo que, para aquele que se abandona inteiramente ao impacto de uma sinfonia, é como se ele visse passarem diante de si todos os possíveis eventos da vida e do mundo: contundo, quando presta atenção, não pode identificar nenhuma semelhança entre aquele jogo sonoro e as coisas que pairavam diante dele.”
A música, na verdade, se distingue das mais variadas artes não por ser uma mera reprodução da experiência, o que não é. O que verdadeiramente faz a diferença é aquilo que o filósofo chama de “objetividade adequada da vontade”, ou seja, a música é, no fundo, uma mímesis volitiva, que expressa que para cada exemplar sensível, há um correspondente metafísico. A partir disso, poderíamos chamar a realidade, de música volitiva encarnada. Possivelmente, isso explica efetividade da vida na realidade, o surgimento da pintura derivada da música, quanto mais for estreita a correspondência melodia e essência das coisas, como afirma Schopenhauer:
“Pois a música, como foi dito, difere de todas as outras artes por não ser cópia do fenômeno ou, mais corretamente, da objetividade adequada da vontade, mas cópia imediata da própria vontade e, portanto apresenta, para tudo o que é físico no mundo, o correlato metafísico, para todo fenômeno a coisa em si. Poder-se-ia, portanto, denominar o mundo tanto música corporificada quanto vontade corporificada a partir disto, pois, pode-se explicar por que a música logo faz aparecer toda pintura, e, aliás, toda cena da vida efetiva e do mundo, em significação mais elevada; e isto, sem dúvida, tanto mais quanto mais análoga é sua melodia ao espírito interior do fenômeno dado.”
O material intuitivo não tem uma relação de necessidade com a universalidade da música; ainda constituem uma arbitrariedade para o universal. Somente revelam a delimitação da efetividade, enquanto a música retrata na universalidade da forma. Dito de maneira mais simples, os conceitos possuem o formato das coisas, a exterioridade, e nesse sentido são abstrações puras. Entretanto, a música fornece a tônica primordial que antecede qualquer composição. Mesmo que Schopenhauer coloque essa consideração, ainda acha possível uma aproximação entre composição e representação intuitiva, aspectos diferentes que apontam para a mesma essência das coisas. Essa dialética, que desemboca no fundamento último das coisas, faz com que o compositor transcreva em palavras as nuances da emoção que a vontade exprime e que é o âmago da universalidade da música. Dessa maneira, a obra musical é considerável, segundo o nosso filósofo:
"Tais imagens singulares da vida humana, associadas à linguagem universal da música, nunca estão ligadas a ela ou lhe correspondem como necessidade completa; estão para ela apenas na relação de um exemplo arbitrário para um conceito universal: expõem na determinidade do efetivo aquilo que a música enuncia na universalidade da mera forma. Enquanto os conceitos contêm somente as primeiras formas abstraídas da intuição, como que a casca exterior tirada das coisas, e, portanto são, bem propriamente, abstrações, a música por sua vez dá o mais íntimo núcleo que precede toda formação. Mas em geral é possível uma referência entre uma composição e uma representação intuitiva, isso repousa, como foi dito, em que ambas são apenas expressões inteiramente diferentes da mesma essência interna do mundo. Ora, quando no caso singular, tal referência existe efetivamente e, portanto, o compositor soube enunciar as emoções da vontade que constituem o núcleo de um acontecimento dado na linguagem universal da música: então a melodia da canção, a música da ópera é expressiva.A analogia encontrada pelo compositor entre ambas, porém, tem de proceder do conhecimento imediato da essência do mundo, sem que sua razão tenha consciência disso, e não pode, com uma intencionalidade consciente, ser imitação mediada por conceitos: do contrário, a música não enuncia a essência interna, a própria vontade; imita apenas, insuficientemente, seu fenômeno; como o faz toda música propriamente descritiva (...)"
A comparação melodia-fundamento das coisas, mediada pelo compositor passa pela ótica do conhecer imediato do fundamento das coisas, sem a intervenção da razão e sem a intervenção da intenção, conceito esse, diga-se de passagem, tão banalizado pela pós-modernidade quando apela por uma subjetividade exagerada. Do contrário, a música não trará o fundamento inquebrantável das coisas; a vontade apenas será uma imitação imperfeita da realidade, como por exemplo, a partitura. Ela é uma tentativa de objetivização e matematização da música, retalhada em tempo, espaço, colcheia, semicolcheia, etc., mas que permanece sem emoção, sem vida, quando não há quem possa executar, ou se o músico se limita apenas a executar o que lhe informa a partitura. Que fique claro: não nego a importância da partitura, somente indico que o músico que tem a técnica não ficar preso a ela. Senão, fica escravo da técnica e não faz a verdadeira música que desvenda do ser e a realidade, e faz dessa relação algo inédito.
quarta-feira, 24 de março de 2010
O estatuto epistemológico da música segundo Schopenhauer
Schopenhauer, em seu livro O mundo como vontade e representação - vol 1, apresenta com maestria uma possível epistemologia da música. A música, para o nosso filósofo em questão, seria uma totalidade daquilo que presenciamos na realidade, que traz em seu bojo uma universalidade que está em paridade com o peculiar das coisas. Todavia, não se trata de uma universalidade alienante, descompromissada com a realidade. Essa universalidade na qual Schopenhauer se refere se relaciona com a matematização dos objetos possíveis da experiência sensível, isto é, elementos da Geometria e os números que são formulas universais da empiria, aplicáveis a priori em qualquer circunstância e contexto. Esse material matemático da experiência, de certa forma, não é abstração, mas, antes de tudo, intuição, com característica de delimitação, demarcação. Dentro desta perspectiva intuitiva, tudo aquilo que ocorre na interioridade humana é passível de ser expresso por uma infinidade de melodias. Não estamos, ainda, no universo dos conteúdos, mas no universo das formas. A melodia, nessa etapa, não está sendo regida por nenhuma empiria, mas repousa naquilo que Schopenhauer chama de “em-si”. Fixemos essa gama de conceitos pela explanação do próprio filósofo:
“A música é, portanto, se considerada como expressão do mundo, uma linguagem universal em sumo grau, que até mesmo para a universalidade dos conceitos está mais ou menos como esta está para as coisas singulares. Sua universalidade, porém, não é de modo algum aquela universalidade vazia da abstração, mas é de espécie inteiramente outra e está ligada a uma completa e clara determinidade. Equipara-se a isso às figuras geométricas e aos números, que, como formas universais de todos os objetos possíveis da experiência e aplicáveis a priori a todos, não são no entanto abstratos, mas intuitivos e completamente determinados. Todos os esforços, emoções da vontade, tudo aquilo que se passa no interior do homem, e que a razão lança no amplo conceito negativo de sentimento, pode exprimir-se pelas infinitas melodias possíveis, mas sempre na universalidade da mera forma, sem o conteúdo,sempre segundo o "em-si", nunca segundo o fenômeno, como que sua alma mais íntima, sem o corpo.”
Essa estreita relação que a música tem com a essência das coisas, de certa maneira, justifica todas as vezes quando estamos ouvindo uma música, uma peça musical, uma sinfonia, nos identificamos prontamente com a música que está sendo executada. E essa correspondência não ocorre sem uma entrega radical, sem reservas à música que está sendo executada, pois, ao contrário, o visgo musical não seduziria a quem pudesse estar a escutar alguma música. Quando alguém se entrega sem medidas à música, não fica isento da atividade do visgo musical: recorda-se de muitas circunstâncias do passado, muitas lembranças vem à tona, daquilo que está vivendo no momento, como um vulcão ativo ao liberar seu magma. Aqui é retirado o véu das coisas, pois quem está a escutar, identifica a melodia com determinado período de sua existência, que de tal maneira tocado por sua ação, não pode ser o mesmo quando estava a escutar pela primeira vez. Esse desvelamento do ser está no processo do vir-a-ser, por isso é inesgotável o que revela a quem aprecia uma obra musical. Cada execução é uma surpresa, uma novidade. Seja por causa da operação desse visgo musical, seja pela disposição humana no exato momento em que está exposta a essa ação da música. Todavia, em um instante racional, ele já não consegue localizar o nexo entre música e realidade. Mais uma vez, com a palavra, Schopenhauer:
“A partir dessa íntima relação que a tem com a essência verdadeira de todas as coisas, pode-se também explicar por que, quando soa uma música adequada a alguma cena, ação, evento, circunstância, esta nos parece abrir seu sentido mais secreto e se introduz como o mais correto e mais claro dos comentários: do mesmo modo que, para aquele que se abandona inteiramente ao impacto de uma sinfonia, é como se ele visse passarem diante de si todos os possíveis eventos da vida e do mundo: contundo, quando presta atenção, não pode identificar nenhuma semelhança entre aquele jogo sonoro e as coisas que pairavam diante dele.”
A música, na verdade, se distingue das mais variadas artes não por ser uma mera reprodução da experiência, o que não é. O que verdadeiramente faz a diferença é aquilo que o filósofo chama de “objetividade adequada da vontade”, ou seja, a música é, no fundo, uma mímesis volitiva, que expressa que para cada exemplar sensível, há um correspondente metafísico. A partir disso, poderíamos chamar a realidade, de música volitiva encarnada. Possivelmente, isso explica efetividade da vida na realidade, o surgimento da pintura derivada da música, quanto mais for estreita a correspondência melodia e essência das coisas, como afirma Schopenhauer:
“Pois a música, como foi dito, difere de todas as outras artes por não ser cópia do fenômeno ou, mais corretamente, da objetividade adequada da vontade, mas cópia imediata da própria vontade e, portanto apresenta, para tudo o que é físico no mundo, o correlato metafísico, para todo fenômeno a coisa em si. Poder-se-ia, portanto, denominar o mundo tanto música corporificada quanto vontade corporificada a partir disto, pois, pode-se explicar por que a música logo faz aparecer toda pintura, e, aliás, toda cena da vida efetiva e do mundo, em significação mais elevada; e isto, sem dúvida, tanto mais quanto mais análoga é sua melodia ao espírito interior do fenômeno dado.”
O material intuitivo não tem uma relação de necessidade com a universalidade da música; ainda constituem uma arbitrariedade para o universal. Somente revelam a delimitação da efetividade, enquanto a música retrata na universalidade da forma. Dito de maneira mais simples, os conceitos possuem o formato das coisas, a exterioridade, e nesse sentido são abstrações puras. Entretanto, a música fornece a tônica primordial que antecede qualquer composição. Mesmo que Schopenhauer coloque essa consideração, ainda acha possível uma aproximação entre composição e representação intuitiva, aspectos diferentes que apontam para a mesma essência das coisas. Essa dialética, que desemboca no fundamento último das coisas, faz com que o compositor transcreva em palavras as nuances da emoção que a vontade exprime e que é o âmago da universalidade da música. Dessa maneira, a obra musical é considerável, segundo o nosso filósofo:
"Tais imagens singulares da vida humana, associadas à linguagem universal da música, nunca estão ligadas a ela ou lhe correspondem como necessidade completa; estão para ela apenas na relação de um exemplo arbitrário para um conceito universal: expõem na determinidade do efetivo aquilo que a música enuncia na universalidade da mera forma. Enquanto os conceitos contêm somente as primeiras formas abstraídas da intuição, como que a casca exterior tirada das coisas, e, portanto são, bem propriamente, abstrações, a música por sua vez dá o mais íntimo núcleo que precede toda formação. Mas em geral é possível uma referência entre uma composição e uma representação intuitiva, isso repousa, como foi dito, em que ambas são apenas expressões inteiramente diferentes da mesma essência interna do mundo. Ora, quando no caso singular, tal referência existe efetivamente e, portanto, o compositor soube enunciar as emoções da vontade que constituem o núcleo de um acontecimento dado na linguagem universal da música: então a melodia da canção, a música da ópera é expressiva.A analogia encontrada pelo compositor entre ambas, porém, tem de proceder do conhecimento imediato da essência do mundo, sem que sua razão tenha consciência disso, e não pode, com uma intencionalidade consciente, ser imitação mediada por conceitos: do contrário, a música não enuncia a essência interna, a própria vontade; imita apenas, insuficientemente, seu fenômeno; como o faz toda música propriamente descritiva (...)"
A comparação melodia-fundamento das coisas, mediada pelo compositor passa pela ótica do conhecer imediato do fundamento das coisas, sem a intervenção da razão e sem a intervenção da intenção, conceito esse, diga-se de passagem, tão banalizado pela pós-modernidade quando apela por uma subjetividade exagerada. Do contrário, a música não trará o fundamento inquebrantável das coisas; a vontade apenas será uma imitação imperfeita da realidade, como por exemplo, a partitura. Ela é uma tentativa de objetivização e matematização da música, retalhada em tempo, espaço, colcheia, semicolcheia, etc., mas que permanece sem emoção, sem vida, quando não há quem possa executar, ou se o músico se limita apenas a executar o que lhe informa a partitura. Que fique claro: não nego a importância da partitura, somente indico que o músico que tem a técnica não ficar preso a ela. Senão, fica escravo da técnica e não faz a verdadeira música que desvenda do ser e a realidade, e faz dessa relação algo inédito.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Mulher, rosto materno de Deus entre nós
Mulher, porque és uma, consegue ser várias:
Mães, esposas, irmãs, donas de casas, trabalhadoras.
Fazes bem tudo porque em tudo deixa uma graça,
um toque leve e sensível, indelével marca.
Cada mulher tem um pouco de Maria de Nazaré,
em noites sem lua e estrelas, clareiam o mundo de fé.
Teu grito de dor, tua lágrima, teus dilemas,
teu abraço intenso, teu olhar, inteiro poema.
Tens sempre mais uma dose de amor em plena dor,
espinhos em tua carne, solo sagrado, se torna flor!
Tua vocação de ser mulher ninguém te tira, é eterna,
Deus que também é Pai, é misericórdia materna...
sexta-feira, 5 de março de 2010
O que é Metafísica?
Metafísica é a união de dois termos gregos: μετα, que significa o que está para além, e Φυσις que é referente a natureza, ao físico. No caso, abordaremos mais especificamente a metafísica aristotélica enquanto “ciência do ser como ser, ou dos princípios e das causas do ser e dos seus atributos essenciais.” Ela abarca o ser imóvel e incorpóreo, princípio dos movimentos e das formas do mundo, bem como o mundo mutável e material, mas em seus aspectos universais e necessários. Aristoteles em suas explanações, afirma que por mais que as ciências matemáticas, físicas e teológicas tenham algo de geral, universal, ainda assim há uma ciência mais universal do que elas: “Se há algo de eterno, imóvel e separado, o conhecimento disso deve pertencer a uma ciência teorética, porém certamente não à física (que se ocupa das coisas em movimento), nem à matemática, mas sim a uma ciência que está antes de ambas. (...) Somente a ciência primeira tem por objeto as coisas separadas e imóveis. Embora todas as causas primeiras sejam eternas, essas coisas são eternas de modo especial porque são as causas daquilo a que, do divino, temos acesso. Consequentemente, há três ciências teoréticas: matemática, física e teologia; já que o divino está em todos os lugares, está especialmente na natureza mais elevada, e a ciência mais elevada deve ter por objeto o ser mais elevado. (...) Se não existissem outras substâncias além das físicas, a física seria a ciência primeira; mas se há uma substância imóvel, esta será a substância primeira e sua filosofia, a ciência primeira e, enquanto primeira, também a mais universal porque será a teoria do ser enquanto ser e daquilo que o ser enquanto ser é ou implica.” (Met. VI,1,1026 a 10)
Ou seja, a Ciência primeira , ou a Filosofia primeira que Aristóteles denomina é a própria Metafísica, ou ainda em termos modernos como Ontologia. Tem como instrumento de estudo “do ser como tal, dos seus princípios e causas últimas, prescindindo da metafísica para as suas determinações sensíveis.”
Leonel Franca , destaca três aspectos importantes da metafísica aristotélica: o indivíduo real, a teoria das causas e a distinção entre ato e potência. Somente o indíviduo, o sujeito possui realidade, o universal não possui existência própria na natureza, mas tão somente no intelecto, como produto de um processo mental, a abstração. Para Aristóteles, há 4 gêneros de causas: material, formal, eficiente e final. A matéria é caracterizada como potência e a forma como ato. Causa é princípio que influencia na existência de um ser. Ato é perfeição e potência é a possibilidade de perfeição. A mudança refere-se à passagem da potência ao ato. A causa eficiente realiza a síntese entre a matéria e a forma e a causa final está para a finalidade da causa eficiente e é determinante para o ordenamento do universo.
Referências Bibliográficas
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
FRANCA, Leonel. Noções de História da Filosofia, 16 ed. Editora Agir, 1960
PADOVANI, Umberto & CASTAGNOLA, Luis. História da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1974
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Dinheiro que serve o homem e se transforma em serviço
Tempo de quaresma, tempo de refletir a vida, rever antigas lições, evitar os erros antigos. Tempo de preparo. Façamos da nossa existência um gesto concreto de amor ao próximo, principalmente com as pessoas de casa. Oração tem ação na sua terminologia, e não significa algo estático; é dinâmico e impulsiona a encarnação da fé em obras. Não fiquemos somente com a fé; seria alienação! Não fiquemos somente com as obras; seria mero assistencialismo! Deus caminha conosco, maravilha-se com o homem, obra de suas mãos, mais do que o homem maravilha-se com Deus. A campanha da Fraternidade de 2010 nos convida a refletir sobre a relação entre Economia e Vida. O dinheiro deveria servir o homem e não o contrário. O homem atual é refém do dinheiro, que é cultuado como se fosse uma divindade. Cristo ensinou que o verdadeiro poder e a verdadeira autoridade vem do servir e não do ser servido. Repensemos nossas relações que são extremamente capitalistas e com terceiras intenções.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Deu Pena, Deu Pena Branca!
Tive a graça e o privilégio de conhecer pessoalmente o querido Pena Branca. Conheci nos bastidores do Canal do Boi em 2002, na oportunidade que tive de me apresentar pelo programa Show Brasil. Típico mineiro, fala pouco, observa e escuta bastante. Tivemos tempo para conversar sobre a música sertaneja, sobre as composições e a carreira brilhante dele e de seu irmão Xavantinho. Algumas horas de conversa me levaram a concluir que o sucesso e a fama nunca fizeram a cabeça de Pena Branca e Xavantinho. É que sua simplicidade, sua ingenuidade caipira nunca permitiram. Fiel à sua raiz e tradição permaneceu até o fim. Demonstrou a todos que é possível fazer boa música, sem deixar de primar por uma mensagem que seja clara, distinta e bela. Mostrou que sucesso é bem diferente do que estar na midia. Contribuiu muito com a cultura mineira, brasileira, a música sertaneja raiz em geral. Deixou rastros luminosos de honestidade, humildade, retidão e de amor ao que fazia, pois sabia do papel social que o artista exerce na sociedade brasileira. Uma cena que nunca mais eu esquecerei foi quando ele me emprestou sua viola para tocar, para o espanto de seu empresário que me disse que ele não costumava emprestar essa viola para ninguém e que eu tinha sido o primeiro. Naquela época, ainda não tocava viola, peguei-a para apreciar mais de perto. Talvez fosse uma pequena semente que Pena Branca jogara em meu coração, sem eu ao menos saber disso. Fiquei sabendo que na ocasião de quando ganhou o Grammy, ele, na sua inocência, perguntou do que se tratava. Só se tratava do maior reconhecimento mundial na carreira de um artista. Já o tinha como um modelo de ser humano e de artista, agora ainda mais, apesar de agora olhar para o palco e ver o microfone e a viola encostada sem ninguém. Sem som da viola pontilhada, sem o som de sua voz que cantava as belezas desta terra. A vida tem dessas coisas. Muitas vezes nos perguntamos porque pessoas boas como Pena Branca se vão, sem sequer uma despedida. Mas de que adiantaria uma despedida, se meu peito arderia de dor do mesmo jeito? Talvez seja para nos ensinar a viver com intensidade, como se fosse as últimas horas da vida, para fazer o que mais gosta com competência e amor, pois isto é consequência de uma profunda realização existencial como ser humano. Convoco a todos que se interessam pela boa música buscarem mais o conhecimento sobre a vida e obra dessa dupla maravilhosa: Pena Branca & Xavantinho. A verdadeira arte nunca morre com seu artista, pode passar seu autor, pode passar quem a concebeu. Ela continua, desde aquela pessoa que canta despretensiosamente sua canção, até aqueles que fazem do cantar a sua profissão. Deus agora não somente tem anjos cantando; tem a dupla completa: Pena Branca & Xavantinho que no céu cantam as belezas desta terra. Deu Pena...Deu Pena Branca!
Mercia Viviane, estrela da terra que o céu levou
O que dizer quando a vida nos rouba uma pessoa incomum? Mercia, ou , Mel, era uma dessas pessoas raras e únicas que cativava sem fazer o menor esforço. Era Veterinária, tinha uma vocação bonita de cuidar dos animais. Realmente era uma pessoa imersa e realizada naquilo que fazia. Não tive, infelizmente, muitos momentos de amizade com a Mel, todavia, os poucos foram o suficiente para ter o exato conhecimento de que não se tratava de uma pessoa qualquer: tratava se de alguém que era especialista em deixar marcas positivas em alguém. Lembro quando participamos do festival de música com o pessoal da Santa Cecília, e na ocasião e ficamos em terceiro lugar ela junto com a Lurdinha pegando o troféu. Lembro da nossa algazarra na pizzaria. Lembro de quantos ensaios ela teimando em tocar no violão a canção que queria tocar. Sua voz suave combinava com sua personalidade, sua especialidade era ser afável com as pessoas. E porque não falar das vezes que insistia em cantar aquela mesma melodia do salmo e sempre errava. Quando acertou, a comunidade reconheceu a dedicação e aplaudiu-a. O que não foi nenhum pouco afável foi o câncer, no qual travou batalhas duríssimas. Mas Mel nunca desistiu, sempre achou que poderia sair dessa. Em 03-02 não resistiu e partiu para a casa do Pai. Na missa de sétimo dia foi homenageada, e pude perceber o quanto era querida. Pude perceber o que antes não percebia: com sua maneira afável de ser, Mel tinha deixado uma marca bonita em mim. As lágrimas banharam o meu rosto e compreendi que o efeito do verdadeiro bem não faz alarde; é silencioso, trabalha no remanso da calma que não tem pressa de chegar, pois no fundo, sabe que chegará. Diante da homenagem feita a ela pelos seus amigos, a comunidade reconheceu novamente sua dedicação e aplaudiu-a. Descobri que ela gostava uma das minhas músicas que compus que se chama Contradição que diz que devemos ser como a vela que é o que é quando ilumina, mesmo estando a chorar. Ela foi essa vela que iluminava em meio às trevas, mesmo quando a doença sugava suas forças. A vida de Mercia está pautada na tolerância e na busca incessante da unidade, ela sabia que em um mundo perdido em desencontros precisava verdadeiramente encontrar-se sob a égide da gratuidade. Quando começa a cessar as palavras, e as lágrimas rolarem, agradeço ao Criador por sua vida, sua presença, e por ensinar tantas coisas que nem eu sabia por tão pouco espaço de convivência e amizade, imagino as pessoas que realmente viveram intensamente, o misto de assombrosa dor e inebriante gratidão que tributam ao Autor da Vida. Na lembrança da missa de sétimo dia está escrito: “Deus não tirou nada de mim, apenas veio buscar o que já era dele. Muito obrigado pelo amor e carinho que eu tive dos meus familiares e amigos.” Realmente, você sabia que não eras a proprietária de sua própria vida, mas era antes um desejo divino, dom de Deus. Obrigado, amiga Mércia, deixarás saudades, não ouviremos mais nessa terra o som da tua voz quando salmodiava, quando tocavas seu violão, quando sabias ser do jeito que você era e continua sendo, só que o Criador te convocou, pois queria te ouvir pessoalmente...
Tua vida está escondida em Cristo e você a encontrou! Enquanto esperamos nesse vale de lágrimas pela irmã morte, tu já ressuscitaste. Eis que proclamavas junto com a Santa Igreja! Teu coração descansa no coração eterno de Deus! Reze por todos nós, rezaremos por você! CREMOS NA VIDA ETERNA!
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Máscaras, identidade perdida e a afirmação da subjetividade
Estamos diante da era das máscaras. Quanto mais máscara melhor. Esconde-se o rosto e desnuda-se o corpo. O importante é segredar a verdadeira identidade e cair na folia, sem compromisso ou responsabilidade. Os povos mais primitivos da velha mãe Terra já se utilizavam deste artefato para se comunicarem com suas divindades. O que há em comum na comparação dos primórdios da humanidade e a atualidade é a ocultação da identidade. Os povos antigos escondiam sua verdadeira identidade por trás da mascara para se conformarem, de certa maneira, com a natureza. Os foliões ocultam sua verdadeira identidade para que possam se divertir sem maiores preocupações com quem seja, a não ser consigo mesmo e com o seu ego. Mas aparece um paradoxo: a identidade é amordaçada para dar vazão ao próprio ego. A ocultação da identidade passa a ser, de certa forma, uma afirmação radical da subjetividade exacerbada. Com a identidade ocultada, pode-se mostrar mais o corpo, pois passado o momento efervescente, quase ninguém mais se lembrará. Ardem-se de desejos uns pelos outros não por quererem bem ao outro, mas somente pelo corpo. Somente restarão as cinzas dos humanos que poderiam ser inteiros, plenos e realizados, mas que hoje são somente pó, são vagantes de lugar nenhum. Nietzsche dizia assim das mulheres: “Há mulheres que, por mais que as pesquisemos, não têm interior, são puras máscaras. É digno de pena o homem que se envolve com estes seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas precisamente eles são capazes de despertar da maneira mais intensa o desejo do homem: ele procura a sua alma - e continua procurando para sempre.” Por isso, quando chegar à quarta-feira de cinzas, que você não chegue só o pó, chegue pessoa com um horizonte concreto de ser ainda mais gente. Tenha coragem de tirar as máscaras e olhar para você sem temer. Nesse momento, não haverá segredos entre sua identidade e você! Encontre-se!
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